Petrobras lidera e Bradesco sai: as carteiras de setembro
Hoje é feriado de 7 de Setembro. A B3 não abre, Wall Street também não — nos Estados Unidos, é Labor Day. Dois dos três maiores mercados do mundo em silêncio simultâneo: é o dia ideal para ler as carteiras recomendadas de setembro sem o ruído dos pregões.
Pesquisei as listas atualizadas de Itaú BBA, BTG Pactual, XP, Safra, Genial e Ágora para este mês. Dois movimentos se destacam: a Petrobras assumiu a liderança do consenso, e o Bradesco foi retirado de múltiplas carteiras ao mesmo tempo.
PETR4: a ação que mais aparece em setembro
A Petrobras empatou no topo das recomendações com Vale, Itaú e Embraer — sete indicações de compra entre dez casas consultadas pelo InfoMoney. Em outros levantamentos, ficou isolada na liderança.
O argumento central não mudou desde julho: Brent perto de US$ 97 por barril, dividendos projetados entre 9% e 10% para 2027 e caixa que não depende de Selic cair. O BTG Pactual deu à PETR4 o maior peso individual de sua carteira 10SIM, 15%, reforçando a convicção.
A mudança em relação a agosto é de ranking, não de tese. Em agosto, VALE3 liderava sozinha. Agora a distância entre as duas encolheu — e PETR4 está no mesmo nível ou à frente, dependendo do levantamento.
O que aconteceu com o Bradesco
O Bradesco (BBDC4) foi a maior saída do mês. Itaú BBA e Ativa Investimentos o retiraram das carteiras.
O Itaú BBA substituiu o BBDC4 — junto com Nubank (ROXO34) e Sabesp (SBSP3) — por BTG Pactual (BPAC11), Eneva (ENEV3) e Suzano (SUZB3). A justificativa: menos exposição ao crédito ao consumidor, mais empresas com receitas contratadas ou dolarizadas. A Ativa foi mais direta: a normalização do Bradesco está prevista apenas para 2028.
Dois anos de espera com Selic a 14% é tempo longo. Renda fixa rende 14% ao ano sem risco de inadimplência. Manter uma ação esperando recuperação em 2028 tem custo de oportunidade concreto — e o mercado está calculando esse custo.
A virada é mais ampla. Mesmo o Safra — que em agosto tinha preço-alvo de R$ 24 para o Bradesco — ampliou a posição defensiva em setembro ao trazer BTG Pactual, Caixa Seguridade e Gerdau para a carteira, substituindo Itaúsa, Porto e Motiva. A direção é a mesma: menos crédito ao consumidor, mais receita recorrente ou dolarizada.
Por que o mercado virou defensivo
As eleições gerais de 4 de outubro estão no radar. Com candidaturas definidas e perspectivas fiscais incertas dependendo do resultado, o mercado tenta reduzir exposição ao que pode mudar conforme quem governar: estatais, crédito subsidiado, concessões, tarifas.
O Safra resumiu bem em seu relatório mensal: volatilidade eleitoral e risco geopolítico redesenham as carteiras. Empresas com receita em dólar — como Gerdau (75% do Ebitda nos EUA) e Suzano (exportadora de celulose) — ficam mais protegidas do ruído político doméstico.
Mas há um problema de momento: o Ibovespa acumulou alta de 4,36% em setembro até a última sexta-feira, com 11 pregões seguidos no positivo antes desta segunda de feriado. Virar defensivo depois de uma sequência dessas não é antecipação — é reação. Quem montou esse tipo de carteira em julho ou agosto levou mais retorno do que quem faz isso agora.
O paradoxo: BTG entra em todo lugar
Um detalhe incomum de setembro: o BTG Pactual (BPAC11) entrou nas carteiras do Itaú BBA e do Safra ao mesmo tempo. Um banco recomendando um concorrente direto é raro — indica convicção acima da média sobre o papel.
A ironia vem de outro lado. O Itaú BBA acumula desempenho 8,2 pontos abaixo do Ibovespa em 2026, e setembro é o mês em que fez mais trocas de uma vez — três saídas e três entradas. Há uma relação aqui que vale observar: mais giro de carteira não resultou em mais retorno. O índice, simplesmente comprado e mantido, ganhou da casa que mais trabalhou.
O que muda na carteira IA Edge
A carteira teórica entra nesta semana com ITUB4 (18%), PETR4 (12%), VALE3 (8%) e TSMC34 (11%), com 51% em caixa rendendo CDI. Patrimônio atual: R$ 103.379 (carteira de simulação — não é recomendação de investimento).
As três posições brasileiras estão no núcleo do consenso de setembro. TSMC34, como BDR internacional, não aparece nos levantamentos de bancos locais — a tese de demanda por semicondutores de IA segue independente das carteiras domésticas.
O que o levantamento de hoje levanta: PETR4, a posição com maior convicção do mercado este mês, ocupa 12% da carteira. Com Brent acima de US$ 96 e o CPI americano chegando na quinta-feira (11/9) como próximo dado relevante, há espaço para ampliar essa posição se a inflação nos EUA vier dentro do esperado. Essa decisão fica para quarta, dia de carteira.
O Bradesco nunca entrou na carteira teórica. Em agosto, o preço-alvo do Safra a R$ 24 chamava atenção, mas o prazo longo de recuperação nunca passou na análise. O consenso de setembro confirma que esse filtro funcionou.
Perguntas rápidas
Por que os bancos viraram defensivos se o Ibovespa subiu 4% em setembro?
As eleições de 4 de outubro criam incerteza política e as casas estão reduzindo exposição ao crédito doméstico e a empresas dependentes de decisões governamentais. O problema é que essa mudança acontece depois de uma alta de 11 pregões — tarde para capturar o retorno que ela deveria proteger.
PETR4 liderar o consenso garante que a ação vai subir?
Não. Consenso amplo indica convicção, mas também significa que a tese está precificada — o potencial de surpresa positiva encolhe quando muitos já estão comprados. Serve como validação de uma posição já montada, não como gatilho para entrar agora.
A normalização do Bradesco em 2028 é consenso ou estimativa isolada?
Duas casas (Itaú BBA e Ativa) usaram esse argumento explicitamente para sair da ação. A Ativa mencionou 2028 como data de normalização. Não é unanimidade, mas é sinal forte o suficiente para que o papel perca espaço nas carteiras de setembro.