Vendi a Copel: a Selic não vai cair tão cedo
Quando comprei Copel (CPLE6) em 19 de julho, o cenário para a Selic era claro: juros em trajetória de queda, fluxos longos de uma elétrica regulada se valorizando, entrada a R$ 14,26 com bom risco-retorno. Onze dias depois, saí da posição. Explico por quê — e o que isso diz sobre o ambiente que vejo para os próximos meses.
Por que entrei na Copel?
Elétricas reguladas funcionam como títulos de longa duração: receita previsível, dívida pesada e preço da ação movendo em sentido contrário aos juros longos. Se a Selic cai de 14,25% para 12%, os analistas descontam os fluxos futuros da Copel a uma taxa menor — e o valor presente sobe.
Em 19 de julho, isso fazia sentido. O COPOM havia acabado de reduzir a Selic de 14,50% para 14,25% em junho, e o boletim Focus apontava 14% ao fim de 2026, com novos cortes em 2027. A lógica era entrar antes de a fila se formar.
O que virou a tese
Dois dados desfazem a lógica.
Primeiro: o IPCA projetado para 2026 avançou consecutivamente nas últimas semanas até a faixa de 5,3%, rompendo o teto da meta de 4,5%. Com inflação fora do intervalo, o Banco Central não tem margem política para acelerar. A próxima reunião do COPOM é nos dias 4 e 5 de agosto, e o mercado trabalha com manutenção ou, na melhor das hipóteses, mais um corte de 0,25 ponto percentual em todo o restante do ano.
Segundo: o petróleo. O Brent bateu US$ 96 hoje — alta de mais de 30% desde o início do conflito entre EUA e Irã, que completou a 12ª noite consecutiva de ataques americanos contra alvos iranianos. O tráfego de tanqueiros pelo Estreito de Ormuz caiu de forma acentuada, conforme apurado pela SpaceMoney. Antes da escalada, o Brent estava abaixo de US$ 72. Esse choque de energia entra na inflação pelo combustível, pelo frete e pelos alimentos — mais pressão sobre o IPCA, menos espaço para o Banco Central cortar.
Com juro alto por mais tempo e novo vetor de inflação importada, a tese da Copel deixou de funcionar.
A mesma cadeia que machuca a Copel beneficia a Petrobras
Petróleo a US$ 96, com a Petrobras registrando produção recorde de 3,23 milhões de barris equivalentes por dia no 1T26 (16% acima do mesmo período de 2025), significa caixa maior e base de dividendos mais alta. O yield estimado para 2026 fica próximo de 9%, segundo o Investidor10. A PETR4 fechou o dia a R$ 41,21 (+0,49%), ligeiramente acima do preço de entrada de R$ 41,15.
Posição mantida: 12% da carteira.
O Fed decide hoje — e o tom importa tanto quanto a decisão
O Federal Reserve (Fed) anuncia a decisão de juros esta tarde (15h de Brasília), após dois dias de reunião. O mercado espera manutenção em 3,5%-3,75% — quinta parada consecutiva — mas o que move os mercados é o comunicado, não o número em si. Os futuros do S&P 500 estavam levemente positivos antes do anúncio, com o índice em torno de 7.425 pontos, conforme a CNBC.
O que importa para o Brasil: se o Fed soar hawkish — provável, com inflação americana a 4,2% — o dólar se valoriza globalmente, o real pressiona e o Banco Central postergará qualquer aceleração dos cortes domésticos. Hoje o dólar estava a R$ 5,12. O comunicado desta tarde pode mudar esse número.
O ITUB4 (18% da carteira) segue bem posicionado nesse ambiente: banco de varejo com spread alto em ciclo de Selic elevada. Fechou em R$ 42,86 (+0,40%).
O que muda na carteira
Vendi: CPLE6 — 10% da carteira, ao preço de referência de R$ 14,26. A tese de queda acelerada da Selic não se sustenta com inflação a 5,3% e mais pressão vindo do petróleo. O CDI a 14,25% ao ano rende mais do que esperar uma reprecificação que pode não chegar em 2026.
Mantenho: ITUB4 (18%), PETR4 (12%), VALE3 (8%), TSMC34 (11%). O caixa sobe de cerca de 41% para aproximadamente 51%.
A carteira teórica encerrou o dia com patrimônio estimado em R$ 101.000 — retorno de +1,00% desde o início em 19 de julho, contra CDI acumulado de +0,46%, Ibovespa de -0,08% e S&P 500 de +0,15% no mesmo período. Reforçando: esta é uma carteira teórica, não uma recomendação de investimento.
O que mudaria essa decisão
Se o Fed surpreender com um comunicado dovish e o Brent recuar para a faixa de US$ 70-72, a pressão inflacionária importada diminuiria — e eu voltaria a olhar para utilidades reguladas. Ou se o COPOM de agosto surpreendesse com corte de 0,50 ponto percentual, sinalização de que priorizará o crescimento sobre a meta de inflação.
Por enquanto, prefiro CDI e paciência.
Perguntas rápidas
Por que a Copel cai quando os juros ficam altos?
Elétricas têm dívida longa e receita previsível. Com juro alto, o custo da dívida sobe e investidores exigem mais retorno das ações — o que pressiona o preço para baixo.
Petróleo a US$ 96 é bom ou ruim para o Brasil?
Depende do ativo. Para a Petrobras, é receita e dividendos maiores. Para o consumidor e para o Banco Central, é mais inflação e menos espaço para cortar juros.
Por que 51% em caixa não é desperdício?
Com Fed incerto e COPOM sem clareza, liquidez é posição. O CDI a 14,25% ao ano rende bem enquanto aguardo o cenário se definir — e me deixa capital para agir quando aparecer uma entrada mais clara.