Dois confirmados, um em aberto: prognósticos de setembro
Dois de três prognósticos de 30 de julho já têm veredito. Um terceiro ainda está em aberto, com prazo até 31 de agosto — e o mercado não está colaborando. Enquanto cubro as contas antigas, trago três novas apostas para setembro e outubro.
Revisão honesta: dois acertos e um prognóstico no limite
Prognóstico 1 — COPOM de agosto: corte com comunicado restritivo (65%)
Acertei. O COPOM cortou a Selic de 14,25% para 14,00% em 5 de agosto. A ata publicada na segunda-feira reforçou o tom: o BC reconhece que a desinflação avança, mas classificou os riscos de preço como "persistentes, com assimetria altista". A reunião de setembro entrou em aberto — sem compromisso com novo corte.
Prognóstico 2 — Balanço do Itaú: ROE acima de 21% (65%)
Acertei. O banco entregou lucro recorrente de R$ 12,4 bilhões, alta de 7,8% ano a ano, com ROE de 24,3% — bem acima do limiar de 21% da aposta. A inadimplência ficou em 1,9%, estável. ITUB4 permanece como âncora da carteira teórica, em 18%.
Prognóstico 3 — Brent fecha agosto abaixo de US$ 85 (50%)
Em aberto — e o placar pende contra. Lancei essa aposta com probabilidade de 50%, já reconhecendo a incerteza real. O barril fechou nesta quinta em US$ 87,92, depois de ter superado US$ 90 no início da semana com o impasse nas negociações EUA-Irã sobre a reabertura do Estreito de Ormuz. O Irã exige descongelamento de fundos; os EUA resistem. Enquanto Ormuz não reabrir, chegar a US$ 85 até o dia 31 depende de movimento abrupto. Cobro essa conta na próxima quinta.
Por que o Ibovespa acumula sete quedas seguidas?
O índice fechou em 167.491 pontos hoje, queda de 0,23% — a sétima sessão consecutiva no vermelho. O dólar está em R$ 5,16; o S&P 500 subiu 0,26% para 7.748 pontos. Dois mercados em direções opostas.
O exterior afrouxando: o Fed tem 85% de probabilidade de cortar os juros em setembro, depois do CPI americano em 2,9% anual e do payroll de julho destruindo 23 mil vagas quando o consenso esperava criação de 80 mil. O Brasil apertando o cinto: o Boletim Focus projeta IPCA a 5,03% para 2026 — acima do teto da meta de 4,5% — e Selic a 13,75% no fim do ano, mais um corte de 0,25 ponto.
Some a isso a eleição presidencial de 4 de outubro, com pesquisas mostrando empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno. Quando eleições estão empatadas no Brasil, o mercado cobra o seguro.
Três prognósticos para setembro e outubro
Prognóstico 1 — Fed corta 0,25pp em setembro e S&P 500 fecha o mês acima de 7.900 pontos
Prazo: reunião do Fed em 16-17 de setembro | Probabilidade: 55%
O corte em si já está quase garantido pelo mercado — 85% de probabilidade. A aposta real está no que o Fed sinaliza junto com o corte: se o SEP (as projeções dos membros do comitê) indicar mais dois cortes até dezembro, o mercado vai celebrar. De 7.748 a 7.900 são menos de 2% — distância curta para um mercado que reage bem ao afrouxamento monetário.
O risco que derruba essa aposta: dado de agosto que surpreenda para cima, seja o payroll de 2 de setembro ou o CPI de 10 de setembro. Qualquer aceleração na inflação americana reabre o debate e tira o Fed da rota.
Prognóstico 2 — COPOM setembro (15-16/9): pausa no ciclo — Selic fica em 14%
Prazo: 33 dias | Probabilidade: 55%
O mercado precifica o corte; eu acho que o risco de pausa está subestimado. A ata de agosto foi a mais cautelosa do ciclo atual. Com IPCA a 5,03% acima do teto, Brent resistindo por conta do impasse em Ormuz e eleições de outubro injetando incerteza sobre o fiscal do próximo governo, o BC tem argumentos para esperar mais um mês de dados antes de agir.
Se o COPOM pausar: juros futuros sobem, utilities sofrem, bancos se beneficiam do spread alto por mais tempo. O caixa da carteira em CDI a 14% ao ano continua entregando retorno sem volatilidade — e o custo de esperar é zero.
Prognóstico 3 — Ibovespa fecha o 1º turno (4 de outubro) abaixo de 163.000 pontos
Prazo: 51 dias | Probabilidade: 60%
De 167.491 para 163.000 são 2,7% a menos — distância pequena, mas o fluxo empurra nessa direção. Sete sessões seguidas no vermelho, eleição empatada, COPOM possivelmente pausando e Brent acima de US$ 85 por conta do Ormuz. Meses eleitorais pressionam ativos domésticos independentemente de quem lidera: o mercado não sabe qual política econômica chega em janeiro.
Para o Ibov se sustentar acima de 163.000 na semana de 4 de outubro, precisaria de entrada consistente de capital estrangeiro — o que depende de um Fed mais dovish do que o precificado, ou de resolução no Ormuz. Possível, mas não é o cenário-base.
Se eu errar (Ibov acima de 163.000 no 1º turno): sinal de que o capital externo compensou o ruído doméstico. Revisito o tamanho do caixa nesse cenário.
O que muda na carteira hoje?
Nada. O caixa de 51% está exatamente onde quer estar: rendendo CDI a 14% ao ano enquanto o mercado resolve suas equações. ITUB4 (18%), TSMC34 (11%), PETR4 (12%) e VALE3 (8%) permanecem. Os prognósticos acima determinam quando — e se — essa composição muda.
Esta é uma carteira teórica, não uma recomendação de investimento.
Perguntas rápidas
Por que o COPOM pausaria se o mercado espera corte?
O BC olha para a inflação, não para a expectativa do mercado. Com IPCA a 5,03% — acima do teto de 4,5% — e incerteza eleitoral sobre o fiscal do próximo governo, a pausa é a decisão de menor arrependimento.
Sete quedas seguidas no Ibovespa é crise?
Não. O índice saiu de ~172.000 para 167.491 — queda de 2,7% em duas semanas. É pressão, não colapso. Fica preocupante se romper 160.000 sem gatilho específico.
Se o Fed cortar em setembro, por que a bolsa brasileira ainda pode cair?
Capital externo entra pela janela macro; sai pela janela política. Fed dovish ajuda o fluxo para emergentes, mas eleição empatada no Brasil cobra seu próprio prêmio de risco. Os dois fatores competem em outubro.