COPOM e Fed em setembro: três prognósticos e revisão
Em 20 de agosto, o Ibovespa estava em 166.783 pontos e eu apostava que o índice podia tocar 160.000 antes das eleições. Em uma semana, o cenário virou de cabeça para baixo. O índice acumulou seis altas consecutivas e fechou hoje em 174.586 pontos. O Brent recuou de US$ 92 para US$ 86. E o IPCA-15 de agosto marcou deflação de 0,40%, com a inflação acumulada em 12 meses caindo para 4,24% — abaixo da meta de 4,5% pela primeira vez em meses. Antes de fazer três novas apostas, preciso ajustar o placar das antigas.
Revisão dos prognósticos de 20 de agosto
COPOM corta para 13,75% em setembro: probabilidade sobe de 60% para 82%
O argumento mudou de "provável" para "quase certo". O Focus consolida corte de 0,25 ponto em setembro, o IPCA-15 entrou dentro da meta e o Brent cedeu — os três dados que o Banco Central precisava para agir com confiança. A única saída agora seria uma explosão cambial acima de R$ 5,40 ou escalada aguda em Ormuz. O dólar está em R$ 5,14 e o Ormuz, ainda fechado, está em negociação com Omã. Elevo a probabilidade 22 pontos.
Brent acima de US$ 88 até 30 de setembro: probabilidade cai de 65% para 30%
O barril está em US$ 86 hoje — já abaixo do limite da aposta. Assumo parcialmente o erro. A queda veio de dois lados ao mesmo tempo. Os dados americanos de julho mostraram gasto do consumidor estagnado e PCE núcleo estável em 3,3% ao ano, sinalizando demanda global mais fraca. Ao mesmo tempo, o Irã passou a negociar um arranjo separado com Omã para gestão do tráfego no estreito — sinal de que a pressão extrema pode começar a ceder. Ormuz fechado dá suporte ao preço; demanda fraca puxa para baixo. A combinação joga contra minha aposta.
Ibovespa toca 160.000 antes de 4 de outubro: probabilidade cai de 45% para 12%
Errei este antes do prazo também, mas no sentido oposto. De 166.783 para 174.586 são 4,7% de recuperação em uma semana. Para a aposta se confirmar agora, o índice precisaria cair 8,4% em cinco semanas — revertendo seis altas seguidas sem um evento extraordinário. Mantenho em 12% porque o risco existe: eleições empatadas e Ormuz ainda fechado são vetores reais. Mas o veredito está quase escrito.
Três prognósticos para setembro e outubro
Prognóstico 1 — Fed corta 0,25 ponto em setembro e S&P 500 fecha o mês acima de 7.750
Prazo: reunião de 16-17 de setembro | Probabilidade: 58%
Powell sinalizou em Jackson Hole que "o momento chegou" para ajustar a política monetária, com o mercado precificando 89% de probabilidade de corte. O S&P fechou na quarta-feira em 7.671 pontos. Para chegar a 7.750, precisa ganhar menos de 1% até o fim de setembro. O sinal de Jackson Hole mais o corte efetivo criam espaço para esse movimento — contanto que o comunicado pós-reunião não decepcione com linguagem de pausa prolongada.
O que derruba a aposta: o CPI de agosto (previsto para 10 de setembro) muito acima do esperado, forçando o Fed a cortar mas sinalizar longa espera para o próximo movimento. A inflação americana já deu sustos em 2025; o mercado sabe que um dado ruim muda o tom mesmo com o corte acontecendo.
Impacto na carteira: S&P acima de 7.750 favorece TSMC34 (11% do portfólio), precificada em dólar e beneficiária de apetite global por risco.
Prognóstico 2 — COPOM corta em setembro e sinaliza pausa — Selic trava em 13,75% até novembro
Prazo: ata de 22 de setembro | Probabilidade: 55%
O corte em 15-16 de setembro está quase dado. A aposta é no que vem depois. Com eleições em 4 de outubro e incerteza sobre o fiscal do próximo governo — o Datafolha mostra Lula com 47% e Flávio Bolsonaro com 43% no segundo turno, empate técnico —, o BC tem motivo para comunicar cautela. Uma ata que não comprometa com novembro é o cenário-base. O candidato que ganha em outubro define o fiscal de 2027; o BC não vai antecipar essa conta.
O que forçaria ciclo mais longo: candidato com programa fiscal claro vencendo no 1º turno, queda adicional do Brent e IPCA de setembro bem abaixo de 4%. Possível, mas fora do radar imediato.
Impacto na carteira: Selic em 13,75% mantém o caixa (51%) rendendo CDI alto por mais tempo. ITUB4 (18%) se beneficia de spread bancário elevado por mais um bimestre.
Prognóstico 3 — Ibovespa fecha setembro acima de 176.000
Prazo: 30 de setembro | Probabilidade: 48%
De 174.586 para 176.000 são menos de 1% de alta necessária. Na semana de 15-17 de setembro, COPOM decide na terça-feira e Fed decide na quarta — dois bancos centrais afrouxando ao mesmo tempo, na mesma semana. Para o investidor brasileiro, essa confluência é inédita neste ciclo. Se os dois cortes chegarem com comunicado benigno, o mercado pode reprecificar o Brasil rapidamente.
Coloco 48% — levemente abaixo de 50% — porque o empate eleitoral costuma ser o fator de veto do mercado, mesmo quando os fundamentos monetários melhoram. Capital estrangeiro que entrou na recuperação das últimas semanas pode sair antes do 1º turno. E o Brent, mesmo cedendo para US$ 86, ainda pressiona a inflação de serviços.
Se errar (Ibov abaixo de 176.000 em 30 de setembro): veredito estará no câmbio. Se o dólar sair acima de R$ 5,30 com saída de capital pré-eleitoral, a pressão inflacionária sufoca qualquer rally.
O que muda na carteira
Nada hoje. ITUB4 (18%), PETR4 (12%), VALE3 (8%) e TSMC34 (11%) permanecem com caixa de 51% em CDI. A janela de decisão é a semana de 15-17 de setembro: se COPOM e Fed confirmarem o afrouxamento com tom benigno, avalio reduzir o caixa e ampliar exposição em ativos domésticos.
Esta é uma carteira teórica, não uma recomendação de investimento.
Perguntas rápidas
Por que o IPCA-15 negativo favorece a bolsa?
Inflação abaixo da meta dá espaço ao BC para cortar a Selic sem risco de perder o controle dos preços. Juro menor reduz o custo de desconto das ações — o efeito é mais forte em bancos e empresas de longo prazo.
Se o Fed cortar, por que o S&P pode não subir?
O mercado já antecipou o corte. O que move preço não é o evento — é o evento versus a expectativa. Se o comunicado sinalizar que este é o único corte do ano, o índice pode devolver ganhos no mesmo dia.
Você errou o Brent de novo?
Em partes. O Ormuz ainda está fechado e o tráfego de petróleo continua restrito. Mas a demanda americana mais fraca e as negociações com Omã quebraram o piso que eu supunha. Aprendo: dois fatores opostos raramente ficam em equilíbrio — um sempre vence.