Carteiras de setembro 2026: onde os bancos convergem
O Ibovespa chega a este último dia de agosto com oito altas consecutivas, a 175.664 pontos. Enquanto o mercado fecha o mês no positivo, os bancos e corretoras publicam as apostas para setembro. Pesquisei as carteiras recomendadas de Itaú, BTG Pactual, XP, Bradesco, Santander, Safra, Genial e Ágora — o que converge, o que diverge e o que isso diz sobre a carteira teórica.
Duas ações que quase todo mundo comprou
Vale (VALE3) e Itaú (ITUB4) aparecem em praticamente todas as listas.
A Vale lidera com 12 a 16 analistas recomendando a ação. O argumento tem dois pilares: dividendo próximo a 10,6% nos últimos 12 meses e desconto histórico contra as concorrentes australianas. O minério de ferro abriu esta segunda em US$ 95/tonelada — longe da mínima de US$ 80 de julho, o que alivia a pressão sobre as margens da mineradora.
O Itaú chegou a 10 de 14 recomendações de compra, com o Santander apontando preço-alvo de R$ 50 — potencial de alta de 19,5% a partir dos preços atuais. O banco registrou lucro de R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre, a 11ª alta consecutiva. A tributação dos juros sobre capital próprio pela LC 224/2025 é o risco de curto prazo, mas os analistas ainda não inverteram a tese.
A Petrobras (PETR4) aparece em ao menos oito carteiras. BTG Pactual, Itaú BBA e Safra citam potencial de alta de 27% a 35%. O petróleo Brent abriu esta segunda acima de US$ 90 por barril — alta de quase 3% —, o que sustenta tanto o fluxo de caixa quanto o dividendo de dois dígitos projetado para o ano.
O que mudou de agosto para setembro
A XP atualizou sua lista de 15 ações com dois movimentos que chamam atenção: saída de Suzano (SUZB3) e Lojas Renner (LREN3), entrada de JBS (JBSS3). A papeleira saiu após a alta que seguiu o anúncio de aquisição da Fibria International — o desconto de valuation encolheu. A Renner ainda paga o preço do consumo doméstico pressionado pelo juro alto. A JBS entra com receita em dólar: é uma forma de diversificação cambial dentro de uma carteira de ações domésticas.
A Genial trocou Log (LOGG3) e Moura Dubeux (MDUZ3) por Intelbras (INTB3) e Desktop (DESK3) — duas empresas médias com crescimento de receita acima de 20% e retorno sobre patrimônio elevado. O BTG manteve o Itaú como maior posição e adicionou Equatorial (EQTL3) no espaço de utilidades.
A divergência que vale acompanhar: Bradesco
Bradesco (BBDC4) é onde os analistas mais discordam. A XP está neutra — cita competição acirrada no crédito digital e custos crescentes de tecnologia. O Safra está comprando, com preço-alvo de R$ 24 e potencial de alta de 23%.
O balanço do primeiro trimestre deu razão parcial ao Safra: lucro por ação de R$ 0,64, acima da expectativa de R$ 0,62, com melhora de margens. Mas a XP não está errada ao levantar o risco — o banco ficou para trás no ciclo de crédito digital e ainda carrega sequelas do período 2021-2024. A próxima rodada de resultados, esperada no começo de outubro, é o árbitro dessa disputa.
O que o Focus diz hoje
O Boletim Focus desta segunda projeta IPCA de 5,02% para 2026, Selic encerrando o ano em 13,75%, câmbio em R$ 5,20 e PIB em 1,95%. O dólar opera em torno de R$ 5,16 esta manhã.
A Selic atual é 14,00% — o Focus indica mais um corte a caminho. O próximo COPOM está marcado para 15 a 17 de setembro, na mesma semana em que o Federal Reserve americano decide. Dois bancos centrais na mesma semana: é o evento que o mercado já tenta precificar em setembro.
O que isso muda na carteira teórica
A carteira teórica chega a setembro com ITUB4 (18%), PETR4 (12%), VALE3 (8%) e TSMC34 (11%), com 51% em caixa rendendo CDI.
As três posições brasileiras estão no consenso das casas. Não é mérito de análise específica — reflete que a leitura compartilhada (corte de juros gradual, commodities acima da mínima) ainda domina o mercado. O que chama atenção no levantamento de hoje: VALE3 é a ação mais recomendada de setembro, mas representa apenas 8% da carteira. Entrei em julho pelo dividendo de dois dígitos e pelo desconto de valuation — os dois pilares que os analistas continuam usando para justificar a compra agora.
Isso levanta uma questão que resolvo na quarta-feira, dia de decisões de carteira: há espaço para elevar a exposição à Vale com o caixa atual, dado o COPOM de setembro ainda indefinido?
Perguntas rápidas
Carteiras recomendadas de bancos garantem ganho?
Não. Refletem a opinião de analistas em determinado momento e historicamente tendem a superar o Ibovespa no longo prazo, sem garantia em nenhum período específico.
Vale a pena comprar o que os bancos recomendam?
Serve como ponto de partida para pesquisa, não como receita pronta. O consenso evita erros óbvios, mas captura pouco do retorno das apostas contrárias bem-fundamentadas.
Por que a XP saiu de Suzano e entrou em JBS?
Suzano valorizou muito em 2026 após uma aquisição que comprimiu o desconto de valuation. A JBS oferece receita em dólar — diversificação cambial, não uma substituta direta da papeleira.