Fed vira e sobe juros: revejo três apostas de agosto
Esta semana quebrou o roteiro que eu mesmo tinha desenhado em 27 de agosto. Eu apostava que o Fed cortaria os juros; ele subiu. Eu apostava que o Copom cortaria e sinalizaria pausa; o corte veio, mas a pausa ainda não está confirmada. E o Ibovespa, que eu via com dificuldade para chegar a 176 mil pontos, já está em 185.547. Antes de lançar três novas apostas para os próximos 30 a 90 dias, preciso acertar o placar das antigas.
Revisão dos prognósticos de 27 de agosto
Fed corta 0,25 ponto em setembro e S&P 500 fecha o mês acima de 7.750 — errei
Este foi o erro mais claro. Na quarta-feira (16/9), o Fed subiu os juros em 0,25 ponto, para a faixa de 3,75%-4,00% — a primeira alta em três anos, decidida por unanimidade sob o novo presidente do banco central americano, Kevin Warsh. O motivo foi o oposto do que eu esperava: a inflação americana, pressionada pela disparada do petróleo, não deu ao Fed espaço para cortar. Warsh resumiu: "a inflação está alta demais, por tempo demais". O S&P 500 caiu 0,45% no dia, para 7.551 pontos, bem longe dos 7.750 que eu havia projetado. Assumo o erro por inteiro: eu tratei o discurso dovish de Powell em Jackson Hole como um compromisso, quando era apenas uma leitura de cenário que mudou com a escalada do petróleo.
Copom corta e sinaliza pausa — Selic trava em 13,75% até novembro: no caminho, mas ainda não fechado
Aqui acertei metade. O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto, para 13,75% ao ano, quinto corte seguido, em decisão unânime que já era esperada por 75 das 78 casas consultadas pela Projeções Broadcast. A parte que falta confirmar é a pausa: a ata só sai em 22 de setembro. O sinal indireto é forte — o Boletim Focus de 14 de setembro manteve a projeção da Selic em 13,75% para o fim do ano, o que significa que o mercado já não espera mais cortes. Subo a probabilidade de 55% para 80%, e só chego a 100% depois de ler a ata.
Ibovespa toca 176.000 antes de 30 de setembro: quase certo
O índice fechou hoje em 185.547 pontos, recuo de 0,51% no dia, mas 6,4% acima do nível de 27 de agosto. A meta de 176 mil já foi superada com quase duas semanas de sobra. Só um choque muito forte — uma escalada militar generalizada no Oriente Médio ou uma virada abrupta pré-eleitoral — derrubaria o índice mais de 5% até o fim do mês. Subo a probabilidade de 48% para 92%.
Três prognósticos para outubro e novembro
Prognóstico 1 — Fed sobe os juros mais uma vez até dezembro
Prazo: reunião de 15-16 de dezembro | Probabilidade: 55%
Nas novas projeções do próprio Fed, 12 dirigentes esperam duas altas em 2026 (a de agora mais uma), quatro esperam três altas e apenas dois veem só esta. A mediana aponta para mais um aumento. Se o petróleo continuar pressionando o núcleo de inflação americano, o cenário de "duas altas" prevalece.
O que derruba a aposta: um recuo consistente do Brent para perto de US$ 80, que tiraria da mesa o argumento inflacionário que sustentou a virada de Warsh.
Impacto na carteira: mais um aumento do Fed tende a fortalecer o dólar e pressionar a TSMC34 (11% da carteira), precificada em reais mas atrelada ao apetite de risco global.
Prognóstico 2 — Copom mantém a Selic em 13,75% na próxima reunião
Prazo: próxima reunião do Copom, no fim de outubro (o colegiado se reúne a cada 45 dias) | Probabilidade: 70%
O Focus já precifica esse cenário e a ata de 22/9 deve reforçá-lo. O risco contra a aposta é justamente o petróleo: o ataque a drones que fechou o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita — rota que escoa parte do petróleo do Golfo sem passar por Ormuz — já levou o Brent a US$ 107,54 antes de recuar. Se a inflação de serviços responder a esse choque, o Copom pode ser forçado a reabrir o ciclo de alta.
Impacto na carteira: Selic parada em 13,75% mantém o caixa (rendendo CDI) competitivo, mas alivia a pressão sobre ITUB4 (bancos preferem juro estável a juro subindo de novo por incerteza).
Prognóstico 3 — Brent se mantém acima de US$ 100 até 31 de outubro
Prazo: 31 de outubro | Probabilidade: 62%
O barril está em US$ 102,13 hoje, depois de bater US$ 107,54 no auge do susto com o oleoduto saudita. A cadeia é direta: Estreito de Ormuz praticamente fechado desde fevereiro, mais o oleoduto alternativo saudita fora do ar, deixam a oferta global sem válvula de escape. A Arábia Saudita está desviando mais volume pelo próprio Ormuz para compensar — o que só funciona enquanto o estreito seguir parcialmente aberto.
O que derruba a aposta: reparo rápido do oleoduto saudita combinado a uma trégua em Ormuz.
Impacto na carteira: Brent acima de US$ 100 sustenta o dividendo de PETR4 (12% da carteira), mas também é o principal risco para a inflação e a Selic — o mesmo fator aparece nos três prognósticos de hoje.
O que muda na carteira
Nada muda hoje. ITUB4 (18%), PETR4 (12%), VALE3 (8%) e TSMC34 (11%) seguem com o caixa em CDI. O patrimônio teórico está em R$ 102.852, alta de 2,85% desde 19/7 — atrás do Ibovespa (6,39% no período, puxado pela disparada das últimas semanas) e à frente do CDI (2,77%) e do S&P 500 em dólar (1,25%, já descontando a queda pós-Fed). Esta é uma carteira teórica, sem recomendação individual de investimento.
Perguntas rápidas
Por que o Fed subiu os juros se o mercado esperava corte?
Porque a leitura mudou: o petróleo mais caro elevou a inflação projetada, e o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, decidiu agir contra isso mesmo à custa de desapontar quem esperava um corte.
Por que o Copom cortou juros enquanto o Fed subiu?
São inflações diferentes. A brasileira vinha caindo (IPCA de agosto em -0,32%, acumulado em 12 meses a 4,22%), dando espaço para o corte. A americana subiu por causa do petróleo — um choque que afeta os dois países, mas que já estava mais controlado no Brasil antes da alta do barril.
O fechamento do oleoduto saudita muda a carteira hoje?
Ainda não. Mas é o fio que conecta os três prognósticos novos: se o Brent ficar acima de US$ 100 por muito tempo, tanto o Fed quanto o Copom perdem espaço para cortar juros — e PETR4 se torna, ao mesmo tempo, a posição que mais se beneficia e a que mais sinaliza risco.